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Para o povo angolano, o dia 11 de novembro irá marcar os 50 anos da independência do país de Portugal, mas também o quinquagésimo aniversário da ditadura instaurada pelo partido MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola).
No aspecto social e de saúde pública, o país africano vive uma crise sem precedentes. Angola caiu 8 posições no índice que mede a fome no mundo, passando do 103º para o 111º lugar entre 123 países.
O país agora figura entre as 13 nações com os piores níveis de fome do mundo, classificado como “grave”. Entre os países de língua portuguesa, Angola apresenta o pior registro em termos de segurança alimentar.
22,5% da população total (mais de 8 milhões de pessoas) vive em situação de subnutrição. 47,7% das crianças angolanas menores de cinco anos sofrem de atraso no crescimento devido à má alimentação.
Além disso, os hospitais públicos em Angola enfrentam há meses escassez de medicamentos e itens básicos (gesso, materiais para raio-x e fios de sutura, por exemplo).
Para saber mais sobre o tema a CSP-Conlutas entrevistou, no dia 3 de novembro, os médicos angolanos Dr. Adriano Manuel e Dr. Fernando Sebastião. Ambos são críticos da ditadura do MPLA.
Manuel é pediatra e falou com a nossa redação diretamente da capital angolana Luanda. Ele também é presidente do Sindicato Nacional dos Médicos Angolanos. Já Sebastião é cirurgião geral na cidade de Portland (Maine), nos Estados Unidos.
CSP-Conlutas: Dr. Adriano, quais são as principais dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde em Angola?
Dr. Adriano: Angola tem cerca de 36 milhões de habitantes, mas não tem mais do que 100 médicos especialistas em cardiologia. O país não tem mais do que 23 médicos especialistas em endocrinologia e 50 médicos especialistas em cirurgia pediátrica.
Além disso, temos a situação de carência em materiais gastáveis. Muitas vezes faltam fios de sutura, luvas, máscaras… Recentemente um grupo de médicos da província do Ambo queixaram-se de estarem a usar, por exemplo, um anestésico já caducado há mais de 6 meses.
Ao mesmo tempo, o governo constrói hospitais de alta complexidade com materiais de ponta, mas não há médicos, trabalhadores, nem recursos humanos para manusear esse material.
CSP-Conlutas: Na esfera do planejamento da Saúde, quais são os principais problemas encontrados?
Dr. Adriano: O que se passa é que nós temos uma assistência primária, que praticamente não funciona. Porquê? Porque não vamos encontrar recursos humanos, não vamos encontrar meios diagnósticos, não vamos encontrar os itens básicos.
Praticamente 90- 95% das mortes no nosso país são por doenças preveníveis. Estamos a falar da malária, da dengue, da tuberculose e do HIV. São patologias preveníveis na assistência primária. Soma-se a isso a má nutrição.
O governo de Angola investe essencialmente no sistema de saúde terciário, que é o sistema de saúde curativo. E isso, de certeza absoluta, tem influenciado negativamente para que tenhamos um elevado índice de mortalidade.
Neste momento, por exemplo, estamos com uma epidemia de sarampo, que é uma doença prevenível por vacina. Temos nessa altura a cólera, que é um problema de saneamento básico, ainda não resolvido no país.
CSP-Conlutas: Qual impacto da fome no agravamento do quadro da saúde pública?
Dr. Adriano: Nós nunca vimos o que estamos a ver agora. Pessoas procurando comida no lixo, por exemplo. Isso não acontecia nunca, nem mesmo no tempo em que nós tivemos o conflito. Pais de família procuram comida no lixo para poder sustentar a família. Atualmente, no nosso país, 45% das crianças com menos de 5 anos padecem de má nutrição crônica.
A fome influenciou negativamente até no contágio de HIV. Para se alimentar, há mais pessoas na prostituição e isso leva também ao contágio pelo vírus do HIV.
CSP-Conlutas: De que forma a crise política, que existe em Angola afeta a população neste cenário?
Dr. Fernando: É claro que o problema não é simplesmente o sistema de saúde, é um é um problema político também. Nós temos um governo ditador. Um governo que está há 50 anos no poder, “desgovernando” Angola.
Quando se faz o orçamento geral do Estado para a saúde não passa de 10%, é sempre 5%. Se fosse para armamento ou fortalecimento do exército, nós estaríamos a falar em 20% mais ou menos.
Dr. Adriano: A prioridade do poder político é a manutenção do poder. Então, vão fazendo coisas a nível da assistência terciária para mostrar à população que se está a construir hospitais, mas, no entanto, a mortalidade continua a ser a mesma porque eles não investem naquilo que é a prioridade, que é na assistência primária de saúde, na prevenção.
Dr. Fernando: Em Angola, também é preciso dizer que ser um sindicalista e pertencer a um sindicato é sinônimo de inimigo do governo. Então o próprio governo também combate a classe sindical, discrimina a classe trabalhadora.
CSP-Conlutas: Qual recado vocês teriam para o público brasileiro?
Dr. Fernando: Historicamente, o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola. Então tem que ser também como uma obrigação moral, os brasileiros reconhecerem que Angola é uma ditadura.
Nós gostaríamos também de ter sindicatos com a mesma dinâmica de trabalho, então é importante fortalecermos esse laço de luta, sobretudo na formação, para também nós fazermos frente a essa ditadura.
Dr. Adriano: Uma das coisas que nós gostaríamos é justamente a ajuda na divulgação, por exemplo, daquilo que é a realidade de Angola, para que os povos compreendam verdadeiramente qual situação os trabalhadores angolanos têm enfrentado.